domingo, 30 de outubro de 2011

MÃOS QUE EXALAM POEMAS

A poesia flora de tuas mãos desnudas,
e assim, nua como tuas mãos,
penetram no meu âmago,
explodindo em meigas canções,
qual onda de maré de lua cheia,
que leve, deslizante, vai de encontro
à brusca pedra que a espera!

Braços abertos, cá estou, sou seu!
Não te quebres ante meus olhos,
meus olhares, meus sonhares,
meus delírios infantis...
Não requebre seus quadriz
em meia volta, esteja solta,
que apesar desta revolta,
ainda trago em pensamento,
num momento, à florescer de ti
a poesia criança, que, eterna,
me balança, num bailar que se faz dança,
que tem acesa a esperança
de um dia, não contido de emoção,
na "crescente" lua cheia,
cravar as presas em tua veia
e beber do teu coração,
a poesia nua, que meiga, nesta canção
vem sorrindo na tua mão.

tio ed 20/07/1981

RAINHA

Se eu pudesse um dia
trazer Maria pro meu barraco
a louça eu lavaria
e não me importaria
de juntar os cacos.

Ela é a rainha da beleza
de um morro
que esquece a tristeza
quando todos tem certeza
que ela vai voltar
trazendo a alegria
de viver um novo dia
a cantar.

Se eu pudesse um dia
trazer Maria
pro meu barraco
a roupa eu lavaria
e não me importaria
de juntar os trapos.

tio ed década 1970


QUIRIRI

QUIRIRI

Na sublime calada
a noite se esvazia
e se enche a madrugada
da mais pura poesia.

Poesia que canta a morte,
da noite que parte, triste,
que morre e tenta ser forte,
e, que forte ainda persiste.

Persiste e rouba e tira,
arranca uma a uma, do céu,
as estrelas, que ao som da lira,
dançavam soltas, vagando ao léu.

E sobrevive na madrugada,
só de penumbra, só de brisa,
de orvalho toda enfeitada.
(Assim, orgulhosa, na noite pisa.)

A noite se foi... não deixou nada,
levou as estrelas e até a lua,
foi-se a imagem tua,
despida dos pudores, pelada, nua.

A noite se esvai, não deixa nada,
da madrugada vive a poesia,
que, meiga, desconcentrada,
não vê, não percebe,
que se aproxima o dia.

Frio, como fria se iniciou a madrugada,
me ponho inerte, absorto, mudo...
e, mudo, não vi, qual morto,
que te puseste ante mim, desnudo,
e em ti, desnuda,
se esvai o frio da madrugada...

Continuo inerte ao ver que vem o sol,
sentindo que se vai a lua,
trazendo em meu corpo o teu cheiro,
que se espalha por toda a rua.

tioed em qualquer dia, década de setenta, século XX.

Em geral as pessoas se preocupam tanto em dar presentes àqueles a quem  amam, para vê-los
contentes, que esquecem de se dar às pessoas amadas, para vê-las felizes.

Cabrocha do amor

Ela menina sambando
É a cabrocha mais linda
Eu, na avenida batucando,
À espera da manhã benvinda.

O batuqueiro não nega a cor,
Vai conduzindo a cabrocha do amor
Lá na avenida, altar do samba,
A cabrocha bamba, desfila colorida.

Eu sou batuqueiro,
Benvindo, meu senhor,
Conheça a minha escola,
Mas não leve o meu amor.
tio ed 1971

sábado, 29 de outubro de 2011

MESTRE SALA

Mora nesta ala, a minha amiga solidão,
Sou o mestre sala, que embala o coração.
Mando nesta fala, minha musica-canção,
vou dizendo sim, talvez queira dizer não.

Não sei quem me ouve, operário ou patrão,
sou o mestre sala, que não sabe dizer não.
Pego na viola e me ponho a cantar
Me socorre, moça pois eu quero ir sambar.

Parece presa a voz, mas eu vou me embalar,
sou o mestre sala e te ensino a sambar.

O samba batuca, batuca contente
maestro é batuta e batuca com a gente.
A gente é de carne, a gente é de osso,
eu perco a cabeça, e te quebro o pescoço.

Te afasta, moço, da mulata do negão
sou o mestre sala, que embala o coração,
deixa esta mulata que inspira a canção,
eu te disse sim, querendo dizer não.

tio ed 1971

O samba continua

Ela vem sambando
num requebrado sem igual
mostrando o charme da morena
vem vibrando coisa e tal.

A cuica vem chorando
bem no meio da escola
e quando chora mais alto,
bem mais ela rebola.

Ela vem sambando
seu pisar é doce no asfalto
ela não notou ainda
que o mundo gira no seu salto.

Eu espero ela chegar
Perto de mim, no meio da rua.
Quando ela chega eu sorrio,
mas o samba continua.

tio ed 14/09/1972

CONFISSÃO


Perdoa-me Senhora, que não vivo sem ti,
arrependido, ponho-me aos teus pés
contando tudo que vivi.
  
Mais uma vez, perdoa-me, pois menti,
não vivi, e, este que aos teus pés se atira,
alem de tudo, mente,
e mente perante o vosso olhar,
dizendo que viveu.
  
As horas são infindáveis,
minutos duram horas
e nestes dias seculares
compreendo que só a tua imagem
arrasta o pó do que fui,
ao nada em que me transformo.
  
Não que a vejo como deusa,
e sim como a Senhora que se faz,
que me mata, que me vive
e me adora, que, como criança,
me da o sorriso e o calor,
quando o frio transforma a lágrima
em estalactite.
A vejo como criança
que se faz senhora, quando me mata
a distância e o calor dos teus lábios.
  
Por isso me venho em prece, confessar,
que a amo e a quero,
que a busco, sem mesmo encontrar,
ao sentir que se finda o dia,
sem um beijo,
sem o calor presente.
  
Estando envolto pela paixão
dos doces momentos,
me atiro à imagem de tudo
que representas neste jogo,
a peça do lance fatal.
  
Arrependido, aos teus pés venho, Senhora,
pedir perdão pelas coisas que deixei de viver,
e de ver ao teu lado,
perdão pelas vezes que a fiz magoada...
  
Mereço castigo,
e o tenho, na ausência das tuas palavras,
no delírio dos meus desejos,
de sentir teus dentes cravando,
de leve, meus lábios,
que jamais foram beijados com tanto amor,
tanta ganância, tanto furor.
  
Venho confessar que, pelos delitos das fugas,
de tentar me abster dos teus carinhos,
sem querer me apegar, sou agora o pó
que espera o teu sopro divino,
para tentar me recriar.
  
Não quero mais pecar,
à bem do meu viver,
amém.
  
tioed (1981)
  

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CREDO

Creio firmemente que sobejará a razão
e, esta, com toda sua majestade,
revolverá os espinhos
e que por sobre eles, triunfantes,
cantarão hinos de glórias,
às róseas pétalas...

Creio, com toda fé que explode em meu peito,
que virá o dia, onde tudo será um plano,
e neste, sem pedra sobre pedra,
todos serão felizes, haverá paz,
ir-se-ão as trevas e resplandecerá
o azul do céu...

Creio, e assim como creio,
das pétalas derrubadas,
dos olhos cansados,
do rosto umedecido,
das trêmulas mãos,
dos soluços entrecortados,
das frases inacabadas,
interrompidas por tépidos beijos,
sobejará a razão.

tio ed 11/04/1975